3 de outubro de 2011

Hilda Ofélia

A imagem abaixo está num recanto do Centro Português de Fotografia, ampliada e iluminada pela retaguarda. Representa Hilda Ofélia, filha de Aurélio da Paz dos Reis (1862-1931) e tem atribuída a data de 1908.
Aurélio tinha o hábito de enviar postais fotográficos aos clientes e amigos. Para além da filha, este postal está carregado de símbolos, dos valores e das referências do fotógrafo, cineasta, floricultor, romântico e revolucionário: um busto da República – antes de ter sido implantada em Portugal – um globo terrestre, livros de autores maçónicos, duas garrafas de vinho do Porto, uma camélia e fotografias da mãe, da mulher e dos filhos.


Luís de Pina, cinéfilo e crítico de cinema, escreveu que o nome Paz dos Reis foi dado ao pai de Aurélio – filho de um miguelista ferrenho - para recordar o fim da guerra civil entre D. Pedro e D. Miguel. Aurélio, por sua vez, acabou por baptizar os filhos com nomes invulgares: Homero Áureo, Horácio Fortunato, Hugo Virgílio e a nossa Hilda Ofélia. Hilda e Homero faleceram em 1919, vítimas da gripe pneumónica que ceifou 60 000 vidas em Portugal. Horácio morreu em França na 1º Guerra Mundial, em 1918. Rudes golpes.
Foi o filho de Hugo Virgílio, Hugo Cândido da Paz dos Reis, que depositou no CPF, em 1997, o espólio de Aurélio, com a condição de não ser retirado do Porto.
Algo que nunca vi escrito e me foi dito por Paula Paz dos Reis, bisneta de Aurélio, sobre a razão de existirem poucos filmes do homem que pela primeira vez rodou uma manivela de cinema em Portugal: os filhos dele, crianças, entretiveram-se a queimar parte das películas de nitrato de celulose filmadas pelo pai.

27 de setembro de 2011

O Porto há 30 anos - VII


A última foto desta série: vista parcial da baixa para ocidente.
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23 de setembro de 2011

O Porto há 30 anos - VI

Duas formas geométricas dominam esta imagem: a rotunda da Boavista e o enorme quadrado do Cemitério de Agramonte, construído em 1855. Entre outros pormenores observamos, à direita, a estação de recolha de carros eléctricos, edificada em 1874 e demolida em 1999, para dar lugar à Casa da Música, e o terreno livre onde foi construído o primeiro centro comercial que surgiu no Bom Sucesso. A fotografia está ainda marcada pelo sol poente invernoso.
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22 de setembro de 2011

O Porto há 30 anos - V

Vista parcial da baixa da cidade para oriente, com Gondomar ao fundo.
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21 de setembro de 2011

Júlio Resende (1917-2011)

Há uma brutalidade nesta pintura, digamo-lo sem qualquer hesitação; brutalidade que consiste em obrigar-nos sem trégua a pensar que o homem é o mais mortal dos animais, que o seu corpo não cessa de ser corroído pela lepra do tempo, que o esplendor da sua juventude se converte com facilidade na mais grotesca paródia de si próprio, que tudo nele está inexoravelmente votado à morte.

Eugénio de Andrade sobre o painel Ribeira Negra, a revisitar aqui.

20 de setembro de 2011

O Porto há 30 anos - IV

A debandada da população do Porto para os concelhos limítrofes já tinha começado quando esta imagem foi captada, entre 1981 e 1985, mas Gaia não tinha ainda a densidade de construção que tem hoje, sobretudo ao longo da Avenida da República e na encosta a sul das Devesas, dois dos locais mais densamente povoados daquela cidade que podem ser observados na fotografia.


Do lado de cá do Douro vêem-se duas ruas que rasgam o casario na vertical da imagem: Santa Catarina, à esquerda, e Sá da Bandeira, quase ao centro. Em baixo, na horizontal está a Rua de Gonçalo Cristóvão.
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16 de setembro de 2011

O Porto há 30 anos - III

Há duas cidades nesta imagem do Porto, a das ruas apertadas no interior da Muralha Fernandina (em baixo e à esquerda) e outra, de malha mais larga (acima e à direita) que surgiu depois do desaparecimento do muro medieval que cingiu o Porto durante cinco séculos. Pode até traçar-se o percurso da muralha, que era paralelo à actual rua dos Clérigos, e, no Olival – na Cordoaria –, flectia à esquerda para descer até ao rio.


A cidade de dentro da cerca parece não ter tido alterações nos últimos 30 anos; já a outra mostra-nos o Jardim da Cordoaria antes da infeliz intervenção de 2001 - que o transformou num espaço arbustivo inóspito - e a Praça de Gomes Teixeira, a dos Leões, antes de ter passado por um processo idêntico. Na Praça de Lisboa está um mercado improvisado que sucedeu ao Mercado do Anjo, desaparecido em 1952. Próximo da cúpula do então Pavilhão dos Desportos, que foi rebaptizado com o nome da atleta Rosa Mota, está ainda o conjunto de antigos edifícios que albergou o Centro de Instrução e Condução Auto, do Exército e, mais tarde, a Reitoria da Universidade do Porto. Naquele espaço surgiram outras construções que acolhem hoje alguns serviços do Centro Hospitalar do Porto.
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15 de setembro de 2011

O Porto há 30 anos - II

É o Coliseu, no centro com a grande cúpula, que marca esta imagem. Vista do ar, a imponente sala de espectáculos mostra a sua real dimensão ao aparecer encaixada, como num quebra-cabeças, nos edifícios envolventes que nos aparecem minúsculos. Parece que tudo se ajustou para que coubesse ali; no entanto, ele está lá apenas desde 1940, enquanto grande parte dos edifícios circundantes foram construídos entre o final do século XIX e os primeiros anos do século XX. É notória também a ocupação intensiva do espaço interior dos quarteirões onde, na origem, terão existido quintais e jardins das antigas casas de habitação.


Diante do Coliseu, que constitui uma jóia da arquitectura portuguesa do século XX, há outro edifício marcante daquele período, a Garagem de Passos Manuel (1938) de Mário Abreu, arquitecto que trabalhou com Cassiano Branco e Júlio de Brito no projecto daquela sala de espectáculos.
Aparentemente não há diferenças entre a data em que a foto foi tirada e os dias de hoje, com excepção de um pormenor no canto inferior esquerdo da imagem, que mostra automóveis alinhados na periferia da Praça dos Poveiros, onde hoje existe um parque de estacionamento subterrâneo.
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13 de setembro de 2011

O Porto há 30 anos - I

A foto remonta à primeira metade dos anos 80, um tempo não muito distante se nos reportarmos à história milenar da cidade. A zona está consolidada desde meados do século XX, quando foi terminada a Avenida dos Aliados. De então para cá, as alterações, do ponto de vista do património edificado não foram muitas. É notória, no entanto, a mudança do pavimento da avenida, que provocou grande polémica em 2006. De resto, por detrás da Igreja da Trindade existia ainda a velha estação ferroviária da linha da Póvoa, que coabitava com uma bomba de gasolina, ambas desaparecidas para dar lugar à estação do metro, inaugurada em 2002. A poente da igreja pode ver-se uma pedreira que resultou da demolição do casario ali existente – o Muro da Trindade - nos anos 50. Hoje existe lá um centro comercial.


A fotografia, como outras que publicarei nos próximos dias, foi tirada no fim da tarde de um dia gelado de Inverno, com nuvens negras por cima, que alternavam com raios de sol vindos do lado do mar. É essa a causa da luz horizontal que atravessa a imagem de poente para nascente.
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6 de setembro de 2011

O Águia d'Ouro


Oitenta anos após a sua construção, em 1931, a fachada que foi o rosto do Café e do Cinema Águia d’Ouro surge renovada, neste Verão de 2011, para acolher um hotel.
Veja também o interior do velho cinema e a fachada, antes desta intervenção, n’ A Cidade Deprimente.

25 de agosto de 2011

8 de agosto de 2011

Rua Conde de Vizela

Foi traçada no século XVII, por iniciativa do padre Baltazar Guedes. No lado poente é composta por um conjunto de edifícios imponentes e de fachadas regulares construídos no início do século XX, características físicas que, juntamente com uma ligeira curvatura, fazem com que a rua pareça mais longa do que na realidade é. Chamou-se Rua do Correio, por ali ter funcionado o correio-mor do Porto. Deve a sua actual designação a Diogo José Cabral, o industrial que detinha a propriedade das casas e terrenos do lado poente, a quem foi concedido o título de Conde de Vizela, em 1900. Ei-la, vista de sul para norte...





... e junto à Rua das Carmelitas, numa ilustração do encontro de dois grandes arquitectos que definiram muito daquilo que o Porto é hoje: Marques da Silva, autor do palácio de dois torreões que liga Conde de Vizela a Cândido dos Reis, e Nicolau Nasoni, o visionário italiano que decidiu viver e trabalhar no Porto, a quem devemos a Torre e a Igreja dos Clérigos.

31 de julho de 2011

O Alfa Pendular...

... envolto na neblina matinal de hoje, parecia levitar sobre a Ponte Maria Pia quando, ao passar na Ponte de S. João, o avistei da Ponte do Infante.


26 de julho de 2011

O elogio da mulher

O que têm em comum Guilhermina Suggia, Aurélia de Sousa, Dona Antónia Ferreira, Rosa Ramalho, Carolina Michaëlis, Joaquina da Conceição Gomes e Sophia de Mello Breyner Andresen? A condição feminina, o facto de serem notáveis e, de uma maneira ou de outra, estarem ligadas ao norte de Portugal.


Foram estes factores que levaram a uni-las num painel sem título mas que poderia chamar-se "O elogio da mulher", com 2,00m por 9,00m, exposto, como elemento decorativo, num restaurante, bar, loja e livraria, fundado por mulheres, o No feminino com , na Praça de Carlos Alberto, no Porto.

GUILHERMINA SUGGIA (1885-1950)
Distinguiu-se como violoncelista. Foi precoce. Aos sete anos fez a sua primeira apresentação pública; aos 13 era já a violoncelista principal da Orquestra da Cidade do Porto. Estudou em Leipzig, na Alemanha, viveu em Paris com Pablo Casals - de quem tinha sido aluna – e em Londres. Em 1924 regressou ao Porto. Guilhermina teve um sucesso absoluto no meio musical europeu. A sala principal da Casa da Música tem o seu nome em homenagem a esta mulher notável. E revolucionária também, no sentido em que contribuiu decisivamente para a abolição de um preconceito, o de que o instrumento que tocava era indecoroso para as mulheres.

AURÉLIA DE SOUSA (1866-1922)
A imagem que está no painel é de um auto-retrato inacabado de Aurélia de Sousa, pintado por volta de 1897. Segundo Raquel Henriques da Silva, sua biógrafa, o enorme laço de cetim preto que a pintora ostenta, contraria a discrição habitual dos seus adereços e, ao mesmo tempo, fragiliza o rosto da pintora com uma modernidade inovadora para as convenções oitocentistas da pose feminina. Aurélia, enquanto Arlequim, ter-se-á divertido, nesta cena de interior, com o espelho e o vestuário.
Filha de emigrantes - nasceu no Chile - veio para o Porto com a família aos três anos de idade. Entre 1898 e 1901 viveu em Paris. No Porto, na Quinta da China, diante do Rio Douro, realizou a maior parte das suas obras, marcadas pelo Naturalismo. Ainda segundo R.H.S., Aurélia de Sousa é uma das mais importantes personalidades artísticas dos anos de 1900. Uma boa parte da sua obra pode ser observada na Casa Museu Marta Ortigão Sampaio e no Museu Nacional de Soares dos Reis.

Dona ANTÓNIA FERREIRA (1811-1896)
Mulher, humanista e empresária, três condições difíceis de encontrar em alguém que tenha vivido no século XIX. Teve uma vida pessoal atribulada mas isso não a impediu de contribuir, de forma notável, para o desenvolvimento da região que a viu nascer, o Douro vinhateiro. Debateu-se contra a filoxera, a terrível doença da vinha que dizimou inúmeros vinhedos provocando a miséria, soube ser solidária com os trabalhadores durienses, teve a coragem de dizer não ao poder político lisboeta e, mesmo assim, aumentou a fortuna que herdou. Dona Antónia Ferreira é incontornável, ainda hoje, quando se fala do Douro.

ROSA RAMALHO (1888-1977)
Teve uma vida longa mas a actividade que a tornou notável, a de barrista, moldando, com imaginação e ingenuidade, diabos, porcos, anjos, cristos, cabras e cenas da vida rural, exerceu-a na adolescência e depois só após os 68 anos. De permeio ficaram 50 anos passados em S. Martinho de Galegos, tempo que dedicou a tratar da família. Foi António Quadros que a deu a conhecer, nos anos 50, e lhe sugeriu que assinasse as suas peças. Hoje o duplo R no figurado de Barcelos é uma assinatura de prestígio. Rosa Ramalho tem seguidores, do seu imaginário fantástico, em Júlia Ramalho, sua neta, e noutros artesãos da sua região natal.

CAROLINA MICHAËLIS DE VASCONCELOS (1851-1925)
Nasceu em Berlim. Chegou ao Porto, em 1876, depois de ter casado com o musicólogo e historiador de arte Joaquim de Vasconcelos, que conheceu devido ao seu interesse pela cultura hispânica. Tornou-se portuguesa por devoção. É a mais célebre filóloga da nossa língua e foi a primeira mulher a leccionar numa universidade nacional, a de Coimbra, para onde se deslocava, partindo do Porto, várias vezes por semana. Escritora, crítica literária, lexicógrafa e investigadora, foi eleita para a Academia de Ciências o que provocou alguma discussão pelo facto de ser mulher. Levou 27 anos a “decifrar e copiar, com paixão e paciência” as “páginas seis vezes seculares” do Cancioneiro da Ajuda que editou em 1904. Publicou 180 títulos em prol do conhecimento da literatura portuguesa.

JOAQUINA DA CONCEIÇÃO GOMES, a São (1938)
Nasceu no dia de S. João. Trabalhou toda a vida como lavadeira. Lavava e cantava, cantava e lavava. Deixou de cantar quando a alma entristeceu e de lavar quando lhe faltaram as forças. Vive na Afurada.






SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (1919-2004)
Nasceu no Porto mas partiu daqui muito cedo, com 10 anos de idade. É uma das figuras nacionais contemporâneas mais consensuais. Discreta e vertical, era avessa a vedetismos, Sophia deixou-nos uma obra literária no domínio da poesia, da prosa e do ensaio, marcada pela originalidade, pelas preocupações sociais e políticas e pela sua formação clássica. É considerada uma das principais personalidades literárias da segunda metade do século XX em Portugal.

8 de julho de 2011

Café e hotel





«Na década de 60, os cafés foram assaltados pela banca, mas não temos assistido à transformação da banca em café. O Astória é o primeiro caso de um banco passar a café.»
A observação é de Helder Pacheco comentando a reabertura do Café Astória, integrado no hotel Intercontinental Palácio das Cardosas. Café e hotel são, como já aqui dissemos, uma mais-valia para a cidade, dois elementos novos na baixa do Porto, que desejamos renovada.

30 de junho de 2011

Can I take a picture? - I

O Porto e a Região Norte emergiram para o turismo à revelia dos decisores que durante dezenas de anos promoveram as regiões de Lisboa, da Madeira e do Algarve como únicos destinos turísticos nacionais. Na origem deste fenómeno estão vários factores. As classificações de Património da Humanidade, atribuídas pela UNESCO ao centro histórico do Porto em 1996 e, em 2001, ao Alto Douro Vinhateiro e ao Centro Histórico de Guimarães, estarão entre os primeiros. As vitórias do Futebol Clube do Porto que levaram o nome da cidade a todo o mundo deram uma grande ajuda, tal como o novo aeroporto e o metro, mas foi uma nova filosofia de viagens aéreas, que acabou com o quase monopólio da TAP e ligou a cidade a dezenas de destinos no exterior, a preços impensáveis, que teve um contributo decisivo.



São esses turistas que aqui chegam diariamente e percorrem a cidade curiosos, de máquina fotográfica em punho, constituindo uma multidão que tem um papel importante na recuperação da baixa e está a contribuir para a mudança do perfil da cidade, tornando-a mais aberta, mais cosmopolita, que esta série de imagens procurará retratar, sob o título generalista “Can I take a picture?”.

28 de junho de 2011

Viagem pelo S. João no Porto

Deixemo-nos levar pela mão de Germano Silva e percorramos alguns bairros tradicionais da cidade, onde há séculos se comemora o S. João. Ouçamo-lo falar das orvalhadas entendidas como a saliva fértil dos deuses, em Cedofeita; dos três são joões que se comemoraram durante a revolução liberal, o da Lapa, que era cartista, o de Cedofeita, miguelista, e o do Bonfim, que foi republicano; do manjerico ligado aos amores, à fraternidade e à amizade, e do alho-porro como protecção contra o mau-olhado. Percorramos ainda os Caldeireiros, onde o autor se detém diante da Confraria de Nossa Senhora da Silva, prossigamos pelo Bairro Herculano até às rusgas na Alameda das Fontainhas. Ouçamos a referência feita há seiscentos anos por Fernão Lopes às festas são-joaninas portuenses e divirtamo-nos, por fim, com a Porto Lazer, a empresa municipal que este ano comemorou o 1º centenário da grande festa tripeira com, no mínimo, 500 anos de atraso.

27 de junho de 2011

As ruas presas às rodas

António Rebordão Navarro


«Estou sozinho na praça ao fim da Avenida Marechal Gomes da Costa, soterrado sobre as movediças areias de um tempo que passou, se é que passa e não constitui uma mera ilusão, como proclamariam alguns pensadores da Idade Média, quando uma voz emitida pelo rádio da central me manda seguir a toda a pressa para a Praça Gonçalves Zarco, onde ocorre qualquer anormalidade com outro taxi.
Acelero pela Avenida da Boavista abaixo, entre velhos solares abandonados que vão perdendo nas degradadas imagens o respeito por si próprios, jardins que se tornaram vastas matas tapando as moradias, prédios novos, de linhas rectilíneas, árvores fugindo à velocidade. Surge a sombra da estátua equestre no meio da rotunda e, ao fundo, soterrado, após as obras da capital da cultura, revolvendo, transformando a cidade, o Castelo do Queijo, forte costeiro cuja origem do nome sempre me escapou, do qual despontam submersos na bruma os torreões.



Sobre o espaço onde se erguera o Colégio Luso-Francês cujo prédio fora por muitos anos afecto à Companhia Carris e ultimamente demolido para, como constava, se edificar um dancing, o que não chegou a acontecer, ali permanecendo só uma ruína, na nova via ligando o Castelo do Queijo à estrada da Circunvalação e à horrenda fronteira sul de Matosinhos; defronte ao edifício transparente, construção de vidros e de poucas paredes, entre a praia e o termo do parque da cidade, mastodonte imponente e de elevados custos, projectado para zona de lazer, um elefante branco que ninguém ousava explorar, era só ocupado pelos ventos, o pó, as areias e a chuva, está um velho taxi parado de capot aberto fumegando. Inclinado sobre ele, como cana de pesca vergada pelo peixe, com os bigodes brancos e pendentes, as mãos esguias, trémulas, negras de óleo, a eterna bata sempre usada em serviço, cinzenta como o céu que nos cobria, o Jeremias Paredes, que na verdade se chamava Carneiro, mas por ser natural de Paredes de Coura, povoação que, saudoso, evocava, estava sempre a superlativar, considerava incomparável, por Paredes seria conhecido e tratado. Era dos mais idosos, talvez o mais antigo motorista de praça da cidade e, a seu lado, nervoso, com uma bela malinha de fino couro na mão direita, a gabardina branca, tão bem dobrada e rígida que parecia sólida, que parecia alva, uniforme mancha pintada numa tela, pendendo do antebraço esquerdo, cheviote de trespasse, gravata regimental, camisa clara, um sujeito estrangeiro invectivava-o, queixando-se do atraso, mirando e remirando o relógio de pulso, declarando num português mascavado, muitas vezes incompreensível, que não podia perder o avião, que fazia, que acontecia. Não lhe liguei ponta de corno. Perguntei ao Jeremias o que se passava. Desanimado, ele contou que fora ao hotel buscar o americano para o conduzir ao aeroporto, o carro começara a deitar fumo, a resfolgar, queimara-se a colaça, recorrera à central para mandarem um colega, enquanto o cliente não cessava de protestar. Das janelas de autocarros quase vazios, alguns viajantes observavam a cena de relance. Dois operários de bicicleta abrandariam um pouco ao passarem ali. Uns catraios ranhosos, hirsutos, friorentos, talvez vindos da praia, rodearam o estrangeiro, pedindo-lhe esmola, de mãos estendidas e sujas. Foram corridos com um berro do Paredes. Tens de mudar de carro, disse-lhe eu. Este já deu o que tinha a dar, e prestei-me a conduzir o irado cliente. O meu colega fechou com estrépito o capot, resmungou, vencido: «É muito tarde. Este morre comigo ou eu com ele. Vou voltar para a terra». O americano nunca mais se calava. Que isto era um país muito atrasado, que não podia perder o avião, que se queixaria ao consulado, ao Governo Civil, à embaixada, ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, que pediria responsabilidades, exigiria indemnizações, desculpas, o diabo. Aturei-o quase metade do caminho e perdi, de repente, a paciência. Vibrei uma bruta palmada no volante que me fez doer toda a mão e gritei-lhe, furioso: «Shut-up!», que eram as únicas palavras em inglês, por certo aprendidas nos filmes de cowboys ainda não denominados western, que eu sabia. O cavalheiro nunca mais abriu bico e até, honra lhe seja feita, me premiou com choruda gorjeta.
Nunca mais soube do Jeremias Paredes. Talvez o carro fosse para a sucata e ele regressasse à sua terra.»

Edições Afrontamento, Março 2011

13 de abril de 2011

Procuram-se ideias para a Praça de Lisboa

O colectivo Esta é a minha cidade? está organizar, com o apoio da revista punkto e da aefaup, um concurso de ideias para a Praça de Lisboa, sob o nome: NO RULES, GREAT SPOT! PROCURAM-SE IDEIAS PARA A PRAÇA DE LISBOA | PORTO.
O concurso que terá como juris Pedro Bandeira (Arquitecto), João Fernandes (Director Museu de Serralves), Nuno Grande (Arquitecto) e Catarina Portas (Loja Vida Portuguesa), pretende relançar o debate urgente sobre a reabilitação urbana e sobre o uso dos espaços públicos da cidade do Porto.

Partindo do caso paradigmático da Praça de Lisboa, que foi objecto de um outro concurso altamente exclusivo e complexo da CMP e da SRU-Porto Vivo, tendo deixado de fora tanto arquitectos como cidadãos, o NO RULES, GREAT SPOT! pretende, por um lado, afirmar a importância dos concursos de arquitectura como modo de participação da sociedade e dos arquitectos nas decisões políticas e nos destinos do projecto colectivo que é a cidade. Por outro lado, quer também fazer da reabilitação urbana um projecto mais partilhado e informado, mais participado e discutido. Mais que eleger este ou aquele projecto, esta ou aquela imagem, este concurso quer, acima de tudo, convocar todos, cidadãos e arquitectos, a discutirem o futuro da sua cidade e a reclamarem esse direito fundamental: o direito à cidade, o direito a participar na cidade!

Agradecemos a vossa ajuda na divulgação deste concurso, que não é apenas mais um concurso de ideias, mas a forma de afirmarmos, enquanto cidadãos e/ou arquitectos, que também podemos ter algo a dizer sobre a cidade e sobre este processo de reabilitação urbana, que tem seguido silenciosamente mas cujas marcas e consequências poderão ser não mais que irreversíveis.
Conto também com as vossas propostas e ideias até 31 de Maio. O formato da entrega é digital e deverá ser enviado por mail - toda a informação em www.norulesgreatspot.com!

+ informações sobre o No Rules, Great Spot!
+ informações sobre a Praça de Lisboa
+ imagens

Bernardo Amaral / Esta é a minha cidade?

30 de março de 2011

Uma mais-valia para a cidade

Foi no espaço onde existiu o Café Astória, que Pilar Monzon, a afável directora geral do InterContinental Porto Palácio das Cardosas, recebeu um grupo de bloggers para um pequeno-almoço e uma visita guiada àquilo que será o futuro hotel de luxo da Praça da Liberdade.


O novo Café Astória

Do antigo Palácio das Cardosas, como é sabido, só restava a fachada; o interior, que datava do início do século XIX, tinha sido demolido para aí instalar um banco, nos anos 60 do século passado. Apesar disso, uma das opções dos novos ocupantes daquele espaço foi construir o hotel tendo presente a arquitectura neoclássica da frontaria, o que é notório nos pés-direitos dos quartos e também nas “pedras, nos estuques, nas madeiras e nos azulejos”, obras, assinala Pilar, de artesãos da região do Porto. “Queremos que os portuenses frequentem o hotel”, para isso “tê-lo-emos de portas abertas” para a cidade, com o Café Astória, um restaurante e um bar. O hotel deverá abrir antes da noite de S. João.

O Hotel InterContinental representa, na depauperada baixa do Porto, um investimento de 30 milhões de euros, e criará 75 postos de trabalho. Terá 105 quartos e 16 suites. Se tivermos em conta que o grupo a que pertence possui 4 500 hotéis em todo o mundo – dos quais 170 são da InterContinental – e a capacidade de mobilização desta cadeia para o nascente turismo portuense, concluiremos que se trata de uma importante mais-valia para a cidade.