31 de dezembro de 2009

Um rio irrequieto

O Douro aparentemente calmo na foz - a escassos dois metros de transpor as margens - e visivelmente sobressaltado em Crestuma, na última das dez grandes barragens que o sustêm depois de entrar em território nacional.





28 de dezembro de 2009

Ópera no mercado

A iniciativa de levar a ópera ao Mercado Central de Valência partiu de um grupo empenhado na divulgação do bel canto. Os excertos da Traviata de Verdi aparecem, aqui, integrados, pela encenação, na vida do mercado, o que acentua a diferença entre este e os dois grandes mercados do Porto.
O do Bolhão, que o presumido autarca portuense mantém há dois anos como ruína depois de ter visto gorada a tentativa de o vender como sucata; e o do Bom Sucesso, o excelente exemplar da arquitectura modernista em Portugal, condenado à “remodelação”, figura de estilo que designa a demolição e construção de mais um centro comercial e um hotel no seu lugar.
Pobre e mal amada cidade esta que vê assim seus valores irremediavelmente delapidados por gente que não os reconhece.

21 de dezembro de 2009

Dezembro no Porto - III




Animação...


... com muita gente nas ruas.


A Tuna de Medicina,


o Rancho de Campanhã,


e o Coro de Biomédicas.


Artesanato na Praça D. João I,


a montra de uma mercearia tradicional e...


... o eterno bacalhau.

17 de dezembro de 2009

Nos cinco anos d'A Cidade Surpreendente

Foi a 17 de Dezembro de 2004 que surgiu a primeira entrada deste blogue, uma pequena reflexão a propósito de uma fotografia aérea tirada por mim em 1997. A Cidade Surpreendente apareceu assim, sem anúncio de intenções aos eventuais visitantes deste espaço porque tinha uma existência anterior, na plataforma Fotolog, onde esteve entre Junho de 2003 e Maio de 2005.



Nessa altura, em 2003, existia apenas um sítio organizado, na Internet, com fotografias do Porto, intitulado O Porto em Fotografia, de António Amen.
A Cidade Surpreendente foi, então, o segundo sítio na rede destinado à publicação regular de fotografias da nossa cidade. Anunciava-se como um diário dedicado “à fotografia e à veneração da sua essência - a contemplação de imagens estáticas” que considerava ser “um prazer perdido num ambiente poluído por apelos ao movimento”.

O terceiro sítio com o mesmo objectivo foi o Baixa do Porto, um álbum fotográfico aberto à participação dos visitantes, criado por José Guimarães em Julho de 2003. Este fotologue não deverá ser confundido com A Baixa do Porto, o popular blogue iniciado por Tiago Azevedo Fernandes em Abril de 2004.

A migração da Cidade Surpreendente para o Blogger foi pautada pela perda de visibilidade. No entanto, com a passagem do tempo, começou a haver algum retorno, comentários e e-mails de visitantes que se manifestavam positivamente sobre o blogue. A primeira grande referência, que fez com que uma autêntica multidão passasse por aqui, veio do Blasfémias, a que se seguiu outra onda de visitantes, não menor, vinda do Abrupto.

O blogue diversificou-se com a publicação de pequenas reportagens e crónicas.
Em A tradição ainda é o que era, aborda-se um antigo fabricante de perucas que continua a trabalhar na Rua do Bonjardim; Na poeira da memória descreve um armazém tradicional de tecidos, entretanto desaparecido; Do moinho e da vida mostra-nos um quadro rural aqui bem perto do Porto; Uma imagem para uma nota do quotidiano portuense relata-nos um fait-divers da urbe.

Outros exemplos são as abordagens a algumas livrarias da cidade, como a Latina e a Lello e a adaptação do filme Arquitectura do Rabelo, onde se mostra a última equipa de mestres a construir um rabelo pelo processo tradicional, numa praia fluvial.

A par da Cidade Surpreendente, que não revelava a decadência do centro do Porto, surgiu, em 2006, como factor de equilíbrio, a Outra Face da Cidade Surpreendente que, mais tarde, mudaria de nome para A Cidade Deprimente. Ali mostra-se o triste estado a que nós cidadãos, mas sobretudo o regime político vigente deixou chegar e mantém, com paninhos quentes, o centro do Porto - uma enorme e extraordinária ruína, fenómeno que, como é sabido, não é apenas portuense.

Creio que ao longo destes cinco anos A Cidade Surpreendente contribuiu para o aparecimento de outros blogues temáticos sobre cidades e que mudou, na internet, a maneira de olhar - e sobretudo de fotografar - o Porto. Fora da rede foi referenciado sobretudo pela imprensa mas também pela rádio e pela televisão.

A todos os que continuam a passar por aqui, o meus parabéns. O blogue, a um ritmo muito próprio, está para lavar e durar.

15 de dezembro de 2009

Praça dos Leões



Das bocas dos leões pode jorrar a água,
das suas pestanas pode tombar o rímel,
dos seus dedos anéis sobre os cinzeiros,
da minha boca a língua
a comer-lhe o baton,
dos meus braços as mãos, circunscrevendo-a.

x

Estamos encerrados numa praça
cercada de armazéns, igrejas, austeros edifícios,
comércios de remotíssimos parentes
de trigo enchendo os navios para Cuba,
arruinando-se.

x

Sucede isto no Porto,
uma cidade onde os destinos pesam muito
e as quimeras de bronze só mitigam
a sede secular de eternas pombas.

x

Nunca, nesse lugar, as bocas se encontraram.

António Rebordão Navarro

11 de dezembro de 2009

O 22







Sobre a história dos eléctricos do Porto consulte a interessante e completa página de Ernst Kers, Os Eléctricos do Porto, e também a do Museu do Carro Eléctrico.

27 de novembro de 2009

O Vista Douro



Parece um rebocador mas não é. É o Vista Douro, um dos barcos que transportam turistas rio acima entre o Porto e a Régua. Com 24 metros de comprimento tem capacidade para 120 pessoas. Ei-lo cruzando a Ponte Luís I a caminho do cais de Gaia.

18 de novembro de 2009

Janelas do Tempo - IX

Duas pontes históricas do Porto

A imagem abaixo tem a particularidade de nos mostrar a Ponte Pênsil a par da Ponte Luís I o que deverá fazer dela uma raridade fotográfica dado que as duas pontes coexistiram durante um curto período de tempo, entre 1886 e 1887. Foi tirada por George Tait, a partir do local onde é hoje o Jardim do Morro - tal como a fotografia contemporânea que pretende mostrar o mesmo sítio nos dias de hoje.

Fotografia de George Tait - séc. XIX



Sobre a Ponte Pênsil, baptizada com o nome de D. Maria II, que caiu no olvido, diz-nos o Diário Ilustrado em 1843, ano da abertura da ponte:

«A ponte é de bela construção e elegante perspectiva. Eleva-se 10 metros sobre o rio, tem de comprimento 170,14m e de largura 6m (…) e descansa sobre quatro obeliscos de pedra de 18m de altura, dois de cada lado. (…) O pavimento da ponte está suspenso de oito amarras, quatro por banda, feitas com duzentos e vinte fios de ferro cada uma. (…) Essas amarras, passando por cima dos obeliscos, vão entrar em poços abertos verticalmente na rocha viva, com a profundidade de 8m do lado da cidade e de 14m do lado da vila. Cada amarra pesa 6 mil quilogramas.
As guardas dos lados são feitas em troncos quadrados de carvalho, de 1,50m de comprimento, dispostas em cruz e solidamente pegadas no solho da ponte.
O panorama que se goza do meio da ponte, quer se olhe para o nascente, quer para o poente, é magnífico.»

Apesar do entusiasmo que perpassa pela pena do redactor do Diário Ilustrado, e da Ponte Pênsil representar uma franca melhoria na travessia do Douro, ao substituir a flutuante Ponte das Barcas, a população da cidade e o poder político olharam-na de soslaio. Achavam-na insegura por «tremer como varas verdes», segundo uns, e por estar «muito próxima da água», segundo outros. A espera por outra ponte durou, no entanto, quarenta anos, e esta surgiu, talvez, mais por força da fervilhante actividade comercial e industrial que o Porto do final do século XIX vivia, do que pelos medos populares.

Em 1880 é dado o primeiro passo para acabar com o delirium tremens da travessia. Nesse ano, segundo O Tripeiro, foi aberto o concurso para a construção de «uma ponte de dois tabuleiros, servindo o inferior a parte ribeirinha da cidade e de Vila Nova de Gaia, e o superior, estendendo-se entre as proximidades da rua Chã e Santo António do Penedo na margem direita, até à parte inferior da fortaleza da Serra do Pilar».

A inauguração do tabuleiro superior da ponte Luís I aconteceu em 31 de Outubro de 1886. Um ano depois, em Outubro de 1887, após a abertura de uma passagem provisória no tabuleiro inferior da nova ponte, deu-se o fim do curto reinado de 43 anos da Ponte Pênsil com o início da sua demolição.

5 de novembro de 2009

Um poema de Minês Castanheira ...

... dito ontem por José Carlos Tinoco, acompanhado pelo improviso, ao piano, de Marco Figueiredo, no Labirintho.



Tenho uma cidade inteira
no livro de bolso.

Uma esquina de segredos que eram a meias
e se escaparam num rasgão,
naquele desencontro ou noutro. Tenho
uma cidade inteira no bolso e levo escondidas
no casaco noites como aquela - em que à conta de
atravessarmos as árvores e arrancarmos raízes,
trocámos os cheiros da terra por histórias
que não precisam de chão. Passámos a ter janelas
para dentro
no lugar dos botões.

Tenho uma cidade de costuras
pouco urbanas,
de buracos remendados com má caligrafia. Tenho
vírgulas gastas, travessões que ninguém quer
a pontuar os encontros nas ruas, quando
destas ruas ainda se faziam margens
para nos esperarmos uns aos outros.
Tenho uma aldeia que se ergue à altura dos olhos
e contorna rotundas com alfinetes de betão.

Tenho uma cidade no bolso.
De contrabando.

Para saber mais sobre a autora consulte o Blogue Literário do Porto

24 de outubro de 2009

Porto



Porto

Portu
gal de cinza e pedra, crista
de rio e mar. Canto (de pe
dra, ainda) escuro (escura).
garra de
semânticas asas. Porto
e navio de âncoras
erguidas,
soterradas.

Porto 2

Coração que do rio
o sangue e a música retira.
gaivota de pedra,
navio
e lira.

Albano Martins

14 de outubro de 2009

O Arco de Sant'Ana

Almeida Garrett lamenta assim, n' O Arco de Sant’Ana, a demolição, em 1821, daquele monumento que conhecera na meninice:

Caíste tu, ó arco de Sant’Ana, como, em nossos tristes e minguados dias, vai caindo quanto há nobre e antigo às mãos de inovadores plebeus, para quem nobiliarquias são quimeras, e os veneráveis caracteres heráldicos do rei-de-armas-Portugal língua morta e esquecida que nossa ignorância despreza, hieroglíficos da terra dos Faraós antes de descoberta a inscrição de Damieta! – Assentaram os miseráveis reformadores que uma pouca de luz mais e uma pouca de imundície menos, em rua já de si tão escura e mal enxuta, era preferível à conservação daquele monumento em todos os sentidos respeitável.



O arco ficava numa das portas da muralha românica, na actual Rua de Santana. Tinha ao centro, na face voltada para a Igreja dos Grilos, um oratório coberto por uma vidraça onde se venerava uma imagem da Santa. O acesso ao oratório era feito através de uma porta aberta na parede da muralha que servia de encontro ao arco. É nessa entrada, hoje convertida em nicho, que a população da Sé venera uma imagem de Santa Ana com S. Joaquim, dando continuidade a um culto que remonta, pelo menos, ao século XVI.

8 de outubro de 2009

Conferências do Passeio Alegre

Estas conferências - que dão origem aos cadernos do mesmo nome - são intervenções, lidas ou não, diversas no tema e na maneira, em que assunto, ou orador, ou público, ou sítio da sessão, têm um fio de ligação, ainda que ténue, com a bela e milenar terra da Foz do Douro.
Repor a antiga e nobre tradição portuense de levar as elites intelectuais e sociais a falar aos cidadãos agrupados em torno das colectividades locais ou em lugares públicos é um dos objectivos destas conferências e, por extensão, dos cadernos
.

A próxima conferência, que ficará na origem do quinto volume dos Cadernos do Passeio Alegre, com o título Uma Carta (inédita) do Japão de Wenceslau de Moraes, será proferida por Jorge de Oliveira e Sousa e terá lugar amanhã, Sexta-Feira 9, às 18h30, no Hotel Boa Vista, na Esplanada do Castelo, na Foz do Douro, com entrada livre.

Das conferências anteriores estão publicados pelo grupo cultural O Progresso da Foz, os cadernos: Centenário do Gabiru, de Pedro Baptista; António Nobre - estudo para um auto-retrato, de Mário Cláudio; Juro que Sou Suspeito - O Processo de Adultério de Camilo Castelo Branco, de António Rebordão Navarro e Realismo e modernidade na poesia de Cesário Verde, de Albano Martins.

Aproveitando a oportunidade da presença do poeta Jorge de Oliveira e Sousa (autor dos livros Paideia, Iceberg e Equidistância), a escultora Maria Leal da Costa, apresentará uma obra sua inspirada nos temas de Iceberg.

3 de outubro de 2009

Se esta rua fosse minha





Os Gaiteiros de Sendim ...



... um tapete de flores ...



... passeios de burro ...



... "matrapilhos" ...



... locais insólitos de descanso ...



... tudo isto e muito mais, hoje, na 3ª edição do festival Se Esta Rua Fosse Minha.

26 de setembro de 2009

Concorda com a construção de edifícios nos jardins do Palácio de Cristal?

«Concorda com a construção de edifícios nos jardins do Palácio de Cristal para um centro de congressos?» é a pergunta que um grupo de cidadãos, organizados no Movimento em Defesa dos Jardins do Palácio de Cristal, propõe para um referendo, em que a população da cidade deverá pronunciar-se sobre a intenção da Câmara Municipal do Porto avançar, ou não, com a iniciativa em causa.

Esta acção, que configura um acto de cidadania perfeitamente legítimo, e até saudável, foi considerada, num folheto profusamente distribuído pela C.M.P. porta a porta, como uma tentativa de «desinformar a opinião pública».

Em causa está o desaparecimento do lago existente nos jardins, que se prevê seja substituído por um espelho de água, e a «remoção» (o eufemismo é camarário) de «apenas cinco árvores», segundo a C.M.P.

De acordo com a Associação de Defesa do Ambiente Campo Aberto, que se debruçou sobre o projecto do centro de congressos, a obra implicará o abate de treze árvores adultas e o risco de sobrevivência para outras dezassete. A Campo Aberto é da opinião que «nada justifica a construção de um edifício para congressos com cerca de 2500 m2 num dos mais extraordinários jardins de que a cidade dispõe», apelando ao bom senso da Câmara do Porto, para que altere o projecto e seja coerente com a política de sustentabilidade a que recentemente se comprometeu.

A folha para recolha de assinaturas, que por imperativo legal está aberta apenas a cidadãos recenseados no Porto, está disponível aqui.

25 de setembro de 2009

Prenúncio



Como dois míticos amantes
o Outono e a Cidade enfrentam-se
no esplendor das primeiras manhãs,
com as folhas crestadas voando
do alto. O frio anunciado esconde-se
ainda no leve arrefecimento das
varandas e ardores súbitos diluem
as nuvens, no princípio das tardes;
breves estios destinados
à intransitiva beleza do malogro,
ao triunfo matricial da sombra.

Inês Lourenço

11 de setembro de 2009

O imaginário botânico do Mosteiro de Tibães em fotografia

Anima Vegetalis, Imaginário Botânico do Mosteiro de Tibães é o título da exposição de fotografia de Paulo Gaspar Ferreira a inaugurar amanhã pelas 18h00, em Tibães. A mostra que, segundo o autor, cativa património natural criando património artístico para o transformar em património sensorial, é composta por setenta imagens, que constarão de um livro de folhas soltas, acompanhadas por textos da autoria de Theodoro d'Almeida, um dos mais importantes iluministas portugueses. Os pequenos excertos, retirados do ambiente pedagogo da sua "Recreação Filosófica" de 1786, aproximam-se de uma linguagem da quase poesia e das fotografias, que são essencialmente feitas com "peças" encontradas no chão de Tibães. A abertura da exposição será precedida, às 15h30, por uma visita guiada ao mosteiro e à cerca monástica de Tibães.

4 de setembro de 2009

Homenagem a Fernando Lanhas

Como forma de agradecimento pela obra e pensamento de Fernando Lanhas, decidiu o Clube Literário do Porto homenagear mais um grande artista desta cidade, um dos maiores nomes da arte portuguesa do século XX.
Nascido no Porto, em 1923, é um homem de múltiplos interesses, arquitecto de formação, pintor, desenhador, poeta, arqueólogo, astrónomo, etnólogo, paleontólogo, coleccionador, etc.
A sua pintura introduziu o abstraccionismo em Portugal a partir de finais dos anos 40, tendo desenvolvido ao longo da sua carreira, uma concepção original da pintura.
Muito mais se poderia dizer sobre Fernando Lanhas, mas prefere o Clube Literário do Porto, convidar o público em geral a visitar este espaço e participar no mês de actividades que pretende organizar em sua homenagem, em simultâneo com a mostra que fará, alusiva à sua obra literária e ao seu pensamento.
A exposição inaugura a 5 de Setembro de 2009 pelas 16h00 e poderá ser visitada de Segunda a Domingo, das 09h00 à 01h00 da manhã (entrada livre).

Clube Literário do Porto

3 de setembro de 2009

Duas dicas

UMA para um filminho feito por quem gosta de ver passar comboios, intitulado Somar recursos mantendo soluções.
A OUTRA, para uma visita à estação ferroviária de Barca d'Alva (ou ao que dela resta), nos confins da sempiterna e resistente (às machadadas do poder central) Linha do Douro, através do imaginário concreto de Jorge Rego, o autor dos Caminhos de Ferro Vale da Fumaça.